ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE TEMPERANÇA

Somos aquilo que pensamos!

A um grupo de cerca de 600 crianças – com idades compreendidas entre os quatro e os seis anos – foi oferecida a possibilidade de comer um marshmallow (guloseima popular nos Estados Unidos). Mas, se elas esperassem quinze minutos antes de o comer, seriam recompensadas com um segundo marshmallow. Com tal desafio, foram deixadas sozinhas na sala. Algumas comeram imediatamente a guloseima, outras conseguiram resistir durante algum tempo, acabando por também comer a guloseima. Apenas cerca de um terço resistiu o suficiente para poder ter a segunda guloseima. Anos mais tarde, em estudos de seguimento, descobriu-se que aquelas crianças que conseguiram esperar tinham as melhores notas na escola e eram as mais bem-sucedidas na vida de uma forma geral.
Este estudo, conhecido como o “Teste do marshmallow” (conduzido por Walter Mischel e colegas da Universidade de Stanford em 19701), foi importante para o trabalho de Daniel Goleman, que, em 1995, lançou um livro, que foi best-seller internacional, intitulado “Inteligência Emocional”.2 Segundo Goleman, o QE ou IE (Quociente de Inteligência Emocional) é muito mais importante do que o QI para determinar o sucesso e a felicidade de uma pessoa na vida. Goleman descreve a “Inteligência Emocional” como tendo cinco aspetos distintos:
• Conhecer as nossas emoções.
• Gerir as nossas emoções.
• Reconhecer as emoções nos outros.
• Gerir os relacionamentos com os outros.

• Motivarmo-nos a alcançar os nossos objetivos.
Vários estudos demonstram que melhorar o QE ajuda a prevenir e a tratar a depressão, fobias, perturbação obsessivo-compulsiva, stresse pós-traumático, anorexia, bulimia e dependências, como, por exemplo, o alcoolismo.3, 4, 5
Neste domínio, o programa de 12 passos dos Alcoólicos Anónimos tem alcançado um sucesso notável, mas é quatro vezes mais bem-sucedido, se for combinado com um programa para aumentar a inteligência emocional.
São vários os fatores que influenciam o nosso QE: a nossa construção genética, as experiências da infância, o nível de apoio emocional e as condições físicas como a doença, a falta de sono e mesmo aquilo que comemos, como bem demonstrou Bonnie Beezhold.6 Uma alimentação vegetariana reduz o nível de stresse, ansiedade e depressão pelo facto de que a carne e o peixe contêm em abundância o ácido araquidónico, uma gordura inflamatória. No entanto, o fator mais determinante – que, por sua vez, não está fora do nosso controlo, tal como a constituição genética e as experiências da infância – é aquilo em que acreditamos. As nossas convicções ditam mais acerca da maneira como nos sentimos do que aquilo que propriamente está a acontecer à nossa volta. A forma como pensamos acerca dos nossos problemas e a nossa conversa connosco mesmos modelam as nossas emoções.
As nossas emoções são grandemente afetadas quando temos nas nossas crenças exigências irracionais, que não toleram a mínima desaprovação, fracasso, dor, rejeição, ou contrariedade. Igualmente quando tendemos a sentir-nos impotentes e vítimas, quando assumimos que os nossos problemas são determinados por circunstâncias passadas ou presentes fora do nosso controlo. Por último, quando um idealismo exacerbado não permite um relacionamento normal com as pessoas à nossa volta.
Estas exigências irracionais estão intimamente relacionadas com distorções cognitivas, como David Burns7 referiu, das quais passamos a citar alguns exemplos:
1. Tudo ou Nada: É ver tudo a preto e branco! Ou tivemos um desempenho brilhante, ou um estrondoso fracasso! Não há meio-termo! Para um estudante de nota vinte, receber um 16, fá-lo sentir-se como um miserável fracassado! Alguém que tem esta visão das coisas e que perde o seu emprego, sente-se um perdedor, incapaz de fazer seja o que for!
2. Supergeneralização: Quando, a partir de um único evento, extrapolamos consequências de uma derrota infindável. Tal foi o caso de um jovem tímido que convidou uma rapariga para um encontro. Como estava muito ocupada, declinou gentilmente o convite. Com isto, ele convenceu-se de que estava fadado para uma vida solitária e triste, pois certamente nem esta, nem qualquer outra moça, jamais aceitariam um convite dele!
Filtro mental: Leva-nos, de forma seletiva, a concentrarmo-nos num aspeto negativo, em detrimento de tudo o que é positivo! Depois de um dia em que, à exceção de um pequeno incidente, tudo correu bem, ao chegar a casa, é do que correu mal que falamos!
Desqualificar o positivo: É uma das piores distorções cognitivas, pois transforma algo neutro ou positivo em algo negativo. Assim foi com uma senhora, internada num hospital devido a uma depressão profunda, que dizia não haver ninguém que se importasse com ela pelo facto de ela ser uma pessoa horrível. Quando confrontada com o facto de que o pessoal do hospital e outros pacientes lhe davam a melhor atenção, ela rebateu com o argumento de que estes não a conheciam no mundo real. Novamente confrontada com o facto de que muitas pessoas de família e amigos a visitavam, replicou que só o faziam porque não conheciam a verdadeira pessoa (horrível) que ela era.
Leitura da Mente: De forma arbitrária decidimos que alguém está a reagir negativamente connosco, sem verificarmos se é assim. Por exemplo, se um amigo passa por nós sem nos cumprimentar, concluímos que já não gosta de nós, quando, na realidade, ele estava apenas distraído.
Raciocínio Emocional: Sinto-me um fracassado, logo, sou um fracassado. É atribuir aos meus sentimentos o crédito de que estes correspondem à realidade.
Personalização: Passa por assumir sempre todas as culpas e responsabilidades. O boletim de notas do filho vem com uma série de negativas e a mãe conclui que a causa do problema é ela, porque é uma má mãe e, por conseguinte, nem sequer é cogitada a responsabilidade individual do filho no assunto.
Segundo as palavras de um sábio da Antiguidade, “Como imaginou no seu coração, assim é ele” (Provérbios 23:7). Portanto, tomar consciência destes erros de pensamento e lutar para corrigi-los a nível mental é fundamental para a nossa felicidade. Ellen White, educadora e escritora americana, reitera do seguinte modo:
“A doença é muitas vezes produzida, e com frequência grandemente agravada pela imaginação. Muitos que atravessam a vida como inválidos poderiam ser sãos, se tão-somente assim o pensassem. Muitos julgam que a mais leve exposição lhes ocasionará doença, e produzem-se os maus efeitos exatamente porque são esperados. Muitos morrem de doença de origem inteiramente imaginária. O ânimo, a esperança, a fé, a simpatia e o amor promovem a saúde e prolongam a vida. Um espírito contente, animoso, é saúde para o corpo e força para a alma.” “O coração alegre serve de bom remédio.”8
Daniel Goleman, no seu bestseller sobre inteligência emocional, apresenta o facto de que a atividade mental daqueles que melhor gerem as suas emoções e que, portanto, possuem maior QE – como os meninos que conseguiram esperar que o professor trouxesse o segundo marshmallow passados quinze minutos –, denotam maior atividade na parte superior do cérebro, conhecida como córtex pré-frontal (ou lobos frontais), em detrimento das áreas primárias onde as emoções e os sentimentos são gerados no sistema límbico. Por outras palavras, as pessoas com inteligência emocional mais elevada processam as suas emoções na região mais nobre do cérebro em vez de se deixarem conduzir por impulsos básicos de emoções não filtradas. Nesse sentido, é interessante notar o trabalho de André Newberg9 (neurocientista, também chamado “pai da neuroteologia”), que, com o seu trabalho de investigação, demonstrou que a experiência de meditação e oração religiosa judaico-cristã favorecem a atividade mental nessa mesma região do cérebro. A conclusão a que podemos chegar vai no sentido de que uma experiência religiosa sadia também pode contribuir para melhorar o QE e a felicidade de uma pessoa.

Daniel Bastos
Presidente da AIT Portugal

Bibliografia
1. Mischel, Walter; Ebbe B. Ebbesen, Antonette Raskoff Zeiss. (1972). "Cognitive and attentional mechanisms in delay of gratification." Journal of Personality and Social Psychology (2): 204-218. DOI:10.1037/h0032198. ISSN0022-3514. PMID 5010404.
2. GOLEMAN, D.. Emotional intelligence. New York: Bantam Books, 1995.
3. Ito LM, Roso MC, Tiwari S, Kendall PC, Asbahr FR. “Cognitive-behavioural therapy in social phobia.” Revista brasileira de psiquiatria (São Paulo, Brasil: 1999).
4. Borkovec TD, Costello E. “Efficacy of applied relaxation and cognitive-behavioural therapy in the treatment of generalized anxiety disorder.” Journal of Consulting and Clinical Psychology, 1993. 61, 611-619.
5. Fava GA, Ruini C, Rafanelli C, Finos L, Conti S, Grandi S. “Six-year outcome of cognitive behaviour therapy for prevention of recurrent depression.” Am J Psychiatry 2004. 161:1872–1876.
6. B. L. Beezhold, C. S. Johnston, e D. R. Daigle, “Vegetarian Diets Are Associated With Healthy Mood States: A Cross-sectional Study in Seventh Day Adventist Adults”, Nutrition Journal 9 (2010), disponível em www.nutritionj.com/content/pdf/1475-2891-9-26.pdf.
7. Burns, David. Feeling Good: The New Mood Therapy. New York: HarperCollins Publishers, 1980.
8. White, Ellen. A Ciência do Bom Viver. Sacavém: Publicadora Atlântico, 1990, p. 241.
9. Newberg, André. http://www.andrewnewberg.com/research.