SABER E VIVER

Comunicação: Uma via de sentido duplo. (1ª PARTE)

Comunicar é mais do que emitir e ouvir sons. Para além do que se possa dizer ou ouvir, está a mensagem que é transmitida e estão os sujeitos participantes na transmissão – o emissor da mensagem e o recetor da mesma. Mas comunicar é, acima de tudo, uma arte, que deve estar presente em todos os aspetos da vida, especialmente no seio da família.

Comunicar. Faz parte da vida. É apanágio de todos os seres vivos, sejam eles humanos ou não. A comunicação é importante em todos os momentos, em todas as áreas.
Na vida militar, por exemplo, quando um exército tenta avançar sobre uma posição inimiga, as comunicações são fundamentais para estabelecer uma coordenação de esforços e de estratégias. Mas, por extremamente importante que seja em todos os campos da experiência humana, é no seio da família que a sua presença, ou a sua ausência, se tornam absolutamente essenciais.
Especialistas afirmam que um dos problemas mais sérios no casamento, e causa primária para o divórcio, consiste na falta de habilidade ou na relutância dos casais em comunicarem. Muitos desses casais sabem que estão a falhar na sua comunicação, mas não estão bem certos do que devem ou não fazer.
Apesar de ser um processo complexo, a comunicação não apresenta complicações. A comunicação no casamento é completa quando um casal é capaz de pôr em prática, com frequência, estes três princípios:
(1) Quando podem utilizar de forma eficaz as regras fundamentais que regem a conversação, tanto quando se fala, como quando se ouve; (2) quando podem resolver conflitos através de métodos construtivos; e (3) quando passam tempo, diariamente, a partilhar os seus sentimentos íntimos.

O que É ComunicaÇÃo
Muitas vezes, supomos que só pelo facto de os lábios de alguém estarem a mover-se está a haver comunicação. A conversação, porém, é uma atividade levada a efeito entre duas pessoas, e implica dar e receber informações. Além disso, ela abrange um círculo que vai além de simplesmente expressar-se através de palavras. É também o processo de receber ou ouvir.
Deveríamos acrescentar uma terceira dimensão a este duplo processo – a compreensão. Costumamos pensar que entendemos o que o nosso cônjuge está a dizer, mas o que ouvimos nem sempre é o que se tenciona dizer. O nosso desejo é que a outra pessoa não apenas ouça o que queremos dizer, mas também que entenda a mensagem.

O Ângulo Inverso da ComunicaÇÃo
Calcula-se que gastamos aproximadamente 70 por cento do dia nalguma forma de comunicação: a falar ou a ouvir, a ler ou a escrever. Trinta e três por cento deste tempo são dedicados à conversação. Este elemento do nosso tempo torna-se muito importante, pois ele une as pessoas.
Conversar significa algo mais do que um mero intercâmbio de palavras ou de informações. Mediante este ato, expressamos os nossos sentimentos, transmitimos as nossas emoções, esclarecemos os nossos pensamentos, reforçamos as nossas ideias e estabelecemos contacto com outras pessoas. É uma maneira agradável de passar o tempo, de conhecer o outro, de relaxar as tensões e de expressar opiniões. Portanto, a função essencialmente básica da conversação não é a simples transmissão de informações, mas o estabelecimento de um relacionamento com outros. A qualidade desse relacionamento dependerá, em grande medida, da habilidade de cada pessoa para se expressar verbalmente.

comun1Barreiras que Impedem uma ConversaÇÃo Eficaz
Muitas são as barreiras que bloqueiam a conversação.
Há quem descarregue a sua linguagem com ordens e instruções: "Vem cá!", "Pendura as tuas roupas!", "Despacha-te!". Outros aparecem com advertências e ameaças. "Se fizeres isto outra vez, eu..." Outros ainda são moralistas: "Não sabes que...?" A maioria das pessoas ressente-se quando ouve expressões como "Precisas de…", ou "Deverias…", ou "É melhor que faças…".
Muitas pessoas utilizam a humilhação, apesar de saberem perfeitamente como uma pessoa se sente quando é humilhada. Estas costumam julgar, criticar e culpar: "A ideia até não é má, tendo em conta que veio de ti." Lançam insultos, ridicularizam e envergonham: "Não passas de um palerma!" Essas pessoas interpretam, fazem o diagnóstico e psicanalisam: "Só dizes isso porque...." Querem ensinar e instruir: "Querida, não deveríamos deixar as nossas toalhas no chão."
O Dr. James Dobson diz que há um jogo, no qual marido e mulher costumam envolver-se. Ele chama-lhe "Assassine o seu cônjuge". Nesse jogo destrutivo, o jogador (geralmente o marido, salienta o psicólogo) intenta castigar a esposa, ridicularizando-a e embaraçando-a diante dos seus amigos. Ele pode magoá-la quando estão a sós, mas, diante dos amigos, pode realmente arrasá-la. Se quiser ser excecionalmente cruel, fará com que os convidados saibam quão tola e feia ela é – os dois aspetos mais vulneráveis de uma mulher. Receberá pontos extra, se conseguir fazê-la chorar.
Assim, existe o "retificador". Por exemplo: enquanto o esposo conta uma história aos amigos, a sua esposa ajuda a manter os factos na linha da realidade absoluta.
"Saímos no domingo à noite..."
"Oh, querido, não foi na quinta-feira, justamente antes do feriado?"
"Bem, saímos na quinta-feira, logo que as crianças chegaram da escola, e..."
"Não, meu amor! Já estava a anoitecer quando saímos. Lembras-te? As crianças voltaram e nós ainda jantámos antes de sair."
"Bem, de qualquer forma, saímos e viajámos diretamente até Portalegre, e ..."
"Amor, tens a certeza de que fomos para lá primeiro? Eu pensei que..."
O retificador sente um impulso irresistível de se concentrar numa narração perfeita. Com frequência, essas observações são tentativas de chamar a atenção sobre si, e denotam muita falta de sensibilidade, por não permitir que a outra pessoa conte uma história como achar melhor, e na medida em que se for lembrando dos factos.
O "juiz" é aquele que está sempre a tentar adivinhar o que virá em seguida. Digamos que a esposa faz esta afirmação: "Quarta-feira à noite estará um filme muito bom no cinema..." O seu marido, sem esperar que ela complete o pensamento, interrompe-a, dizendo: "É, mas nós não vamos."
O "monopolizador" sente-se impelido a falar e insiste com frequência em dar a última palavra. Não suporta ser corrigido e, por isso, mantém uma atitude de "sabe-tudo". É vulgar os monopolizadores sentirem uma tremenda necessidade de ser populares, mas quanto mais monopolizam a conversa, tanto mais aborrecem os outros e se privam da possibilidade de formar amizades duradouras.
O "silencioso" usa o silêncio como arma ou maneira de controlar. Tanto o homem como a mulher fazem uso desse método, mas, normalmente, de formas diferentes. Quando o homem se cala, é sinal de que, dentro dele, estão a crescer emoções fortes, tais como o medo, ou a ira. A mulher geralmente usa o silêncio a fim de se vingar de alguma injustiça que lhe foi feita, ou quando ela chega ao nível máximo do desespero. Existem duas razões pelas quais essas pessoas aplicam o tratamento do silêncio: (1) Um dos cônjuges recusou-se a ouvir, da última vez; (2) O cônjuge calado está profundamente magoado. Alguns Cristãos acham que não é certo dizer o que estão a pensar. Outros aderem ao silêncio por amor aos filhos. Contudo, essa repressão de emoções afeta a pessoa física, mental e espiritualmente.
De acordo com alguns conselheiros matrimoniais, metade dos casamentos problemáticos que chega ao seu conhecimento tem a sua raiz no "marido silencioso". Muitas mulheres queixam-se de que os seus maridos não conversam com elas e não há como conseguir que o façam. Esse tipo de marido comunica primariamente no nível de "conversa curta" ou "objetiva".
São numerosas as atitudes que motivam o silêncio do esposo. Alguns homens, em particular os que consideram o trabalho a coisa mais importante da vida, veem poucas coisas como tendo real valor, a não ser a produtividade. A sua resposta a todos os problemas da vida é ação, não conversa. Outros homens são tão dogmáticos e autoritários que se recusam a continuar a falar sobre um assunto, uma vez que a sua opinião já foi dada. Outros ainda detestam conversar sobre coisas que consideram "triviais".
Quando a esposa enfrenta um problema, ou se sente nervosa e irritada, ela quer falar, desabafar os seus sentimentos. O marido, por sua vez, quando está sob pressão emocional, em geral, cala-se, tranca as portas e enclausura-se dentro de si mesmo, porque, desde o nascimento, foi treinado a manter um rígido controlo sobre as suas emoções. Rejeita qualquer coisa que difira do sistema de vida lógico e imparcial ao qual foi acostumado. E, à medida que avança em anos, torna-se mais irredutível, a fim de que o seu grupo não perceba qualquer sinal de brandura ou de emoção.
Sempre que os sentimentos se avolumam dentro de si, a resposta automática deste tipo de pessoa consiste em rejeitá-los, especialmente se estiver na presença de uma pessoa do sexo feminino. Quando se zanga e explode com a esposa, não é um cavalheiro. Se chora, está a demonstrar fraqueza. Por isso, usa o silêncio para escapar aos seus sentimentos, não compreendendo que essa atitude deixa a sua esposa irritada, pois o que ela quer é esclarecer as coisas.
Contudo, poucos homens querem, realmente, permanecer no silêncio. Quase todos gostam tanto de conversar como as suas esposas, se bem que, em geral, sobre coisas diferentes. Mas, se for repreendido ou censurado, até mesmo o homem mais bem-intencionado irá fechar-se ainda mais decididamente no silêncio. Ele deseja e necessita de uma companheira com a qual se sinta seguro e a salvo do ridículo. O homem responderá à mulher em quem confia.

MÉtodos Eficazes de ConversaÇÃo
comun2 Existe um velho adágio que diz: "Trata a tua família como tratarias os teus amigos, e os teus amigos, como a tua família." A maioria de nós precisa de fazer um esforço concentrado no sentido de falar ao nosso cônjuge com a mesma fineza e educação com as quais tratamos os nossos amigos. Frequentemente, a intimidade da vida familiar leva-nos à negligência e à perda do respeito, e logo descartamos todos os sinais de "pare" e achamos que podemos dizer e fazer o que bem entendemos. "Afinal de contas", racionalizamos, "é só a minha família!".
De que maneira está a comunicar com o seu cônjuge?
São as suas palavras temperadas com o sabor picante do sarcasmo? É capaz de especificar o que quer dizer? Demonstra interesse pelo seu cônjuge, permitindo que ele perceba que você se preocupa com a sua pessoa? Tem usado o pronome eu na sua conversação, de modo a que ele compreenda a sua mensagem? Este sistema identifica os seus reais sentimentos para com o seu cônjuge, e expõe-nos aberta, honesta e bondosamente. Mensagens dadas na primeira pessoa (eu) são especialmente úteis quando você se irrita com algo que o seu cônjuge faz. Em vez de responder com palavras hostis, diga: "Isto irrita-me, porque..."
Compare as diferentes reações às mensagens emitidas por duas esposas depois de os seus maridos se terem recusado a levá-las a almoçar fora.
Esposa nº 1: "Não tens consideração! Trabalho o dia todo como uma escrava, e tu nunca pensas em ninguém a não ser em ti mesmo. Só te interessa ver televisão. Já estou farta!"
Esposa nº 2: "Estou realmente a precisar de uma folga hoje. Não saio de casa a semana inteira. Preciso de ficar um pouco a sós contigo, para podermos conversar num nível mais adulto."
A esposa nº 2 diz apenas como se sente, facto que o seu marido não pode discutir. A esposa nº 1 culpa, julga e arrasa o seu marido. Esta atitude servirá de munição para uma discussão acirrada e fá-lo-á tornar-se ainda mais decidido do que antes.
As mensagens emitidas na primeira pessoa eliminam rapidamente a possibilidade de ataque e defesa de ambos os lados, evitando que se critiquem e se culpem um ao outro. Se a esposa faz com que o seu marido se lembre, de maneira acusadora, de que ele dispõe de tempo suficiente para trabalhar nos seus próprios negócios, mas que nunca encontra tempo para manter o quintal em ordem, é provável que a sua reação seja mais ou menos assim: "Caramba! Já começou! Será que não sabes fazer outra coisa, senão aborrecer-me com esta história do quintal?"
Uma comunicação direta dos sentimentos da esposa, mediante uma mensagem pessoal, aliviaria a situação: "Este quintal sujo e desorganizado está a irritar-me cada vez mais. Eu gostaria de conversar contigo a este respeito, enquanto ainda tenho condições de controlar os meus nervos." Ela fê-lo conhecer os seus sentimentos, sem o arrasar ou dizer-lhe o que fazer. Agora ele está livre para aceitar ou rejeitar a sua opinião.
Eis mais alguns exemplos de como utilizar mensagens pessoais:
A esposa está a ver televisão na cama, quando o seu marido quer dormir. "Tive um dia cheio e estou cansado de mais para ver televisão contigo. Vou ver se consigo dormir agora."
O marido esconde-se atrás do jornal assim que chega do trabalho, mas a esposa diz-lhe: "Estou a precisar de uma conversa íntima esta noite, porque estou a sentir-me muito irritada! Seria muito bom conversar um pouco contigo!"
As mensagens pessoais trazem resultados realmente assombrosos. Muitos cônjuges ficam surpreendidos quando descobrem como o outro se sente acerca das coisas. As suas respostas costumam soar mais ou menos assim: "Eu nem sabia que isto estava a perturbar-te", ou "Porque não disseste isso antes?" É fácil subestimarmos a boa vontade do nosso cônjuge. Se quer realmente que os seus sentimentos sejam reconhecidos, deve comunicá-los constantemente de maneira direta, até que seja compreendido.

A Arte de Ouvir
A falta de atenção", diz um psicanalista, "é geralmente a raiz da maioria dos problemas matrimoniais de comunicação. Algumas vezes, causa apenas aborrecimento ou irritação. Mas quando alguém está a falar de algo importante, a tentar resolver um problema, ou a procurar apoio emocional, a falta de atenção pode provocar resultados desastrosos".
No entanto, a maioria de nós prefere falar a ouvir. Gostamos de expressar as nossas ideias e dizer o que sabemos e como nos sentimos acerca das coisas. Despendemos mais energia a expressar os nossos pensamentos do que a ouvir atentamente quando outros expressam os seus. Parece uma coisa tão simples ouvir as pessoas, contudo, a maioria de nós é um ouvinte desatento, porque ouvir requer concentração.
Quais são alguns dos problemas na arte de ouvir?
Certo casal buscou aconselhamento profissional, porque a sua conversação se tinha transformado numa discussão constante. Cada tarde, ao chegar a casa, o marido queria descarregar os acontecimentos do seu tenso dia de trabalho. A esposa, por sua vez, queria contar como teve que suportar as traquinices dos seus três irrequietos filhos. Cada um deles esperava ser compreendido, apoiado e ter os seus problemas resolvidos. Contudo, nenhum deles queria ter a paciência de ouvir com espírito compreensivo, mas lançava ansiosamente as suas próprias reclamações sobre o outro.

Barreiras na Arte de Ouvir
O "ouvinte entediado" é aquele que já ouviu aquela conversa antes. Quando o Sr. J. repete aquelas mesmas reclamações a propósito do trabalho, a Sra. J. diz de si para si: "Lá vem ele outra vez", e então, coloca a mente em "ponto morto". Contudo, quando o Sr. J. disser algo novo e esperar apoio e encorajamento da parte da esposa, dificilmente os conseguirá.
O "ouvinte seletivo" é aquele que seleciona partes da conversação, que são do seu interesse, e rejeita o resto. Por exemplo: O marido está a ver o noticiário das 20:00 horas, enquanto a sua esposa está a conversar. A maior parte do que ela diz entra por um ouvido e sai pelo outro, mas quando ela menciona algum gasto extra nas compras do supermercado, ele torna-se todo ouvidos. Outras pessoas não querem ouvir o que lhes desagrada, ou que seja alarmante ou diferente – o comportamento do Eduardo na escola, ou mais despesas com o carro. Não se ganha nada em rejeitar o que não se quer ouvir. Em muitas situações, precisamos de pôr todos os factos em ordem a fim de tomar uma decisão.
O "ouvinte defensivo" é aquele que distorce tudo o que se diz, transformando uma afirmação num ataque pessoal. Certa esposa disse casualmente ao marido que o novo comprimento dos vestidos a deixou sem roupa de passeio. Apesar de nunca ter mencionado o desejo de reformar o seu guarda-roupa, o marido ficou furioso, porque sentiu que aquela afirmação insinuava que ele não estava a conseguir ganhar o suficiente para satisfazer as suas necessidades de vestuário. Uma esposa magoada aplicou o "tratamento do silêncio" ao seu marido a noite inteira, porque achou que o seu desgosto quanto aos modos das crianças à mesa era um ataque pessoal à sua habilidade para os educar adequadamente.
Os "interruptores" são aqueles que, em vez de prestar atenção ao que está a ser dito, passam o tempo a preparar argumentos para contradizer o que se diz. Interessados apenas nas suas próprias ideias, dão pouca atenção às palavras dos outros e esperam apenas uma fração de segundo para poderem interromper a conversa com: "Oh, isso não é nada! Devias ter visto o que aconteceu comigo!" ou "Isso faz-me lembrar...".
Existe também o "ouvinte indiferente" – este não é capaz de perceber o sentimento ou a emoção por detrás das palavras. Uma jovem esposa pede ao marido que a leve a jantar fora. Ela não está tanto a precisar de ser levada a jantar fora, como está de se sentir segura quanto ao amor do esposo e de saber que ele está disposto a esforçar-se para lhe agradar. Se ele lhe diz bruscamente que não tem condições financeiras para esse luxo, ou que está cansado de mais para sair, é evidente que não ouviu o significado por detrás daquele pedido.
No nosso próximo número, veremos outros aspetos importantes da comunicação.
Até lá, amigo leitor, desejamos que analise a forma como a comunicação se dá na sua família. Certamente encontrará coisas que podem ser melhoradas. Experimente começar por analisar as suas próprias capacidades comunicacionais…

Manuel Ferro
Redação Saúde e Lar

Tema adaptado da obra Felizes no Amor, de Nancy Van Pelt, pp. 73-95