PEQUENOS QUE JÁ COPIAM OS GRANDES

Quando realizei com os meus alunos de 1º ano as primeiras provas de avaliação, fiz questão de frisar a sua dupla importância: por um lado, a de revelar o que eles haviam aprendido; por outro, a de me darem a conhecer aquilo que eles não tinham ainda aprendido – permitindo-me ajudá-los em tais dificuldades.
Fiquei logo depois surpreendido pela espontaneidade com que alguns alunos se levantaram e, tendo ido buscar os seus dossiês, os colocaram em pé, a meio das mesas, criando assim um obstáculo à visão dos colegas, impedindo-os de copiar. O gesto foi seguido por todos perante a minha anuente passividade.
Durante a realização da prova observei, porém, vários alunos que, com o mesmo à vontade com que haviam colocado os dossiês, se recostavam nas cadeiras de modo a contornarem o obstáculo e a conseguirem, assim, “consultar” as respostas do colega. Não pude deixar de sorrir perante tão ingénua matreirice. Mas o que os levava a tal ação? Uma reflexão conjunta não ajudou, já que nenhum deles aceitou revelar o seu motivo. Pesquisei em alguma literatura e na internet. Nada! Tudo o que consegui foi saber que o “copianço” é uma prática corrente entre mais de 50% dos alunos do secundário e do ensino superior (alguns estudos chegam a apontar mais de 70%) e que tais alunos consideram essa prática “normal” ou “pouco grave”. A competitividade e a pressão para se obterem boas notas são as razões apontadas.
Competitividade e pressão já nos meus alunos de 6 e 7 anos?!
Entendi por bem enfatizar que mais importante do que a obtenção de uma boa “nota” é que a classificação obtida traduza o “nosso melhor”. Obviamente, também abordei o valor da honestidade. Mas, pelo sim, pelo não, fui acrescentando que, quando um aluno copia, ele próprio está a considerar o outro mais competente. Confesso que este apelo à honra não foi lá muito bem-sucedido.


Jorge Branquinho

Prof. 1º Ciclo, Mestre em Ciências da Educação