ESTILO DE VIDA

E se a vida fosse o que nós queremos?

Uma amiga minha enviou-me há algum tempo um poema que, entre outros versos, dizia o seguinte:
“…Pedi sabedoria e a Vida deu-me dificuldades para resolver. Pedi Coragem, e a Vida deu-me obstáculos para superar.…”

A Vida é uma caixinha de surpresas: umas boas, outras menos boas, outras ainda terríveis, sendo difícil de imaginar que alguém possa passar por elas e sair mais ou menos compensado. Nada está seguro no vaivém da Vida, em especial no vaivém dos relacionamentos, dos objetivos a que nos propomos. É muito difícil ser marido, mulher, pai, mãe, filho, trabalhador, dirigente de alguém, amigo, etc., e ninguém pode orgulhar-se de ter agido sempre bem ou de ter tomado as decisões ou a direção certas. Por mais que tentemos planear a nossa Vida e procuremos alcançar os objetivos que traçamos, temos de pensar que, em qualquer momento, pode haver alguma coisa ou alguém que poderá intrometer-se nessa viagem e vemos frustradas as nossas expectativas, obrigando-nos a pensar em alternativas para resolver os problemas e reestruturar às vezes tudo, sob pena de, se não o fizermos, podermos adoecer psico-emocionalmente.

A pressão e a resposta pessoal
Um dos filmes que apreciei ver e que contribuiu para o repensar no circunstancialismo que envolve a Vida e como um conjunto de situações adversas, quando não devidamente compensadas no momento oportuno, podem conduzir à descompensação total, foi “Um Dia de Raiva”, de Joel Schumacher. O enredo é intrigante e perturbador, caracterizando a forma como, na nossa sociedade, cada vez mais a viver no imediato e virada para fatores economicistas, aspetos que se vão interligando com o aumento da instabilidade familiar e profissional, a dificuldade em dialogar, em fazer-se entender e em compreender os outros, podem gerar tamanha tensão e stresse, bloqueando a capacidade de resposta adaptada, dando lugar à violência, muitas vezes não desejada, ao desajuste, à descompensação neurótica, podendo chegar a um fim verdadeiramente trágico.
Do intrincado e complexo conjunto de situações stressantes, frustrações, problemas relacionais ou outros, doenças, etc., que fazem parte da Vida, ninguém está livre. A resposta aos mesmos, a forma como cada um lida com as adversidades, seja no plano afetivo, no social, no familiar, no laboral, estabelece a diferença entre a manutenção do equilíbrio emocional ou não e, consequentemente, entre uma Vida mentalmente saudável, ou uma outra povoada de inúmeros pensamentos e sentimentos negativos, que contribuem para uma visão pessimista e trágica do Eu, dos Outros e dos acontecimentos, gerando um mal-estar constante, do qual pode surgir a descompensação, seguindo-se a doença mental, quando às vezes, a priori, não se supunha que pudesse acontecer. É certo que cada um nasce e desenvolve uma estrutura de personalidade, que inclui muitas potencialidades e capacidades, mas também vulnerabilidades, colidindo fatores internos e externos no processo de crescimento, sendo que algumas circunstâncias são mais de proteção contra o desajuste e outras mais de risco, não existindo a figura do mundo perfeito, da sociedade, da família, dos meios ideais. A aprendizagem de lidar com a frustração, com a adversidade, ou seja, com o doloroso sentimento de não conseguirmos aquilo que queremos ou esperávamos, aquilo a que sentimos que temos direito, começa logo após o nascimento, porque, de facto, é uma frustração para o bebé não saber como colmatar atempadamente algumas das suas necessidades, que ele ainda não sabe explicar. Será, então, à medida que resolvemos problemas e superamos obstáculos que nos vamos tornando mais autónomos, sábios, com melhores capacidades para gerir os conflitos, controlar os impulsos, aumentando a nossa autoconfiança, o autoconhecimento e as expectativas realistas acerca de nós próprios.

O que não depende de nós
No entanto, existem situações para as quais não estamos minimamente preparados emocionalmente, por mais autónomos, seguros e sábios que sejamos. É que existem coisas que nos ultrapassam, em relação às quais nem sequer tivemos tempo de dar opinião ou de dizer o que sentimos e que não são controláveis por nós. Estou a falar de perdas afetivas, de acontecimentos traumáticos, como maus-tratos, violência sexual, acidentes em que não estivemos ativos, perdas materiais provocadas por causas naturais ou outras, conhecimento de uma doença grave crónica ou que conduza irremediavelmente ao sofrimento e à morte, etc., face aos quais nos sentimos perdidos e em que a dor é tão profunda que achamos que a Vida perdeu todo o significado. Dificilmente conseguiremos ultrapassar consequências desses acontecimentos sem recorrer a ajuda, e levará, por certo, algum tempo, talvez até a Vida toda, para acreditar outra vez que somos alguém, que temos capacidades e que podemos confiar em nós e nos outros.

A capacidade de agir
A par das situações que não controlamos, estão as outras, muitas vezes em maior número, felizmente, que podemos controlar e até antecipar. Como atores sociais que somos, os nossos comportamentos têm influência nos dos outros e vice-versa, quer na família, no meio socioprofissional e, numa perspetiva mais vasta, na comunidade de residência e no mundo. Dou-vos um exemplo do que quero dizer: se eu não começo a separar o lixo em minha casa, contribuo para o aumento da poluição na terra, no mar e no ar, que, por sua vez, tem consequências na camada do ozono e no aquecimento do Planeta. Assim, um comportamento simples – separar o lixo – faz a diferença no mundo em que vivemos. Se isto for multiplicado por todos os habitantes da comunidade, vejam a grande diferença produzida. O mesmo se aplica aos afetos: violência gera violência; conflitos geram conflitos; abraços geram abraços; conseguir comunicar de forma eficaz gera entendimento; etc.. É importante que deixemos de ser comezinhos ao ponto de vermos só o que a nossa vista e o nosso coração alcançam, e passarmos a pensar que somos cidadãos do mundo, ou seja, vermo-nos a nós próprios nesta perspetiva mais vasta e inclusiva. Aquilo que pensamos, sentimos e fazemos, influencia o pensar, o sentir e o atuar do outro, que, por sua vez, influencia o nosso pensar, sentir e atuar. Vão-se, então, construindo diversas cadeias de pensamentos, sentimentos e ações, que poderão ser promotoras de mudança, para melhor ou para pior, ou de saúde ou de doença mental e física, dependendo do sentido, da orientação seguida e do ponto de vista. Admiro as pessoas que revelam uma energia de tal modo positiva perante adversidades que conseguem, depois da reação normal de rebeldia e de vivenciarem sentimentos de raiva, injustiça, tristeza, ver para além desses acontecimentos e pensar posteriormente em alternativas de ação, não permitindo que, insidiosamente, a depressão, a ansiedade, a obsessão, o medo, se instalem e criem raízes tão profundas que, por vezes, se perde a noção da realidade. Não é fácil, no mundo em que vivemos, manter o equilíbrio emocional e uma saúde mental saudável. Tal facto exige uma supervisão constante dos nossos hábitos, uma introspeção quanto ao que pensamos e sentimos e uma vontade férrea para alterar o que não está bem, seguindo uma outra via, esquecendo a anterior. Admiro as pessoas que conseguem mudar, que conseguem dialogar sobre coisas que conduzirão a grandes decisões, como o amor, a sexualidade, os estudos, o trabalho, a profissão, a religião, etc., mesmo perante ideias divergentes.

Um risco compensador
A Vida é um risco que vale a pena ser assumido e vivido com intensidade, mas com responsabilidade. Até poderia ser sempre como nós queremos. O problema é que nós nem sempre sabemos o que queremos, e ninguém nos garante que, se fosse como queremos, seríamos felizes ou estaríamos satisfeitos. Por isso, ela segue o seu rumo, e a maior parte das nossas decisões influenciam-na e orientam-na; outras, nem por isso. Reconhecer a influência dos nossos comportamentos, saber filtrar as indicações sociais dos comportamentos dos outros, compreender o ponto de vista dos outros, ter expectativas realistas em relação a nós próprios e às nossas responsabilidades, identificar os nossos sentimentos, expressá-los, conseguir adiar uma situação recompensadora, conseguirmos ser justos para connosco e o nosso próximo, esforçarmo-nos por dialogar e não permitir o afastamento, a inveja, a intolerância, a noção de injustiça unilateral, vermo-nos como atores sociais nesta aldeia global que é o mundo, serão estratégias possíveis para ultrapassar alguns obstáculos e resolver conflitos, aumentando o nosso bem-estar individual e, em consequência, tipo bola de neve, o coletivo.

soluÇÕes simples

O modo de vida atual está a destruir o planeta Terra e a deixar muitas pessoas alarmadas. O líder indiano Mahatma Gandhi já tinha aconselhado: “Vive de forma simples para que outros possam simplesmente viver.”
Da Revista Audácia, fica o resumo de alguns conselhos, dados aos jovens e que nos podem ajudar, a todos, a atingir esse louvável objetivo:
1° Corta com o Centro Comercial: Não faças compras por impulso ou diversão... Estabelece dias de “baixo consumo” ou de “consumo zero”.
2° Compra com dinheiro: Paga as tuas dívidas. Sempre que possível, tenta fazer pagamentos com dinheiro. Faz ajustes para viver dentro das tuas possibilidades.
3° Sente o perfume das flores: Que o relógio não seja uma algema no teu pulso. Escuta o teu relógio interior. Oferece-te dias de retiro, de verdadeiro descanso, sem nenhum programa. Não fiques até à última hora do dia a ver televisão... De vez em quando vive um dia sem horas marcadas: passeia sem destino. Surpreende alguém com uma visita, uma flor...
4° Recupera o lema da tua vida: Foge da rotina. Faz algo de novo todas as semanas. Procura ter tempo para aquilo de que gostas. Luta para conseguir um ambiente de estudo ou de trabalho mais enriquecedor.
5° Viaja para dentro: Prolonga ao máximo a vida do teu automóvel. Sai com tempo e, sempre que possível, caminha. Utiliza mais os transportes públicos. Faz com que o tempo no autocarro ou no comboio seja enriquecedor: lê, conversa, aprecia. Antes de fazeres turismo para o fim do mundo, tenta conhecer melhor a tua região, o teu país. Viaja também ao teu mundo interior: às tuas qualidades, aos teus medos, ao lugar do diálogo íntimo com Deus...
6° Apaga a televisão: Evita equipar a tua televisão cada vez com mais canais, como forma de passar/matar o tempo. Foge da ilusão de que estás informado só porque vês o telejornal. Lê mais. Pesquisa. Ouve música. Escreve mais a quem amas.
7° Não corras atrás de tudo o que é novidade: As novas tecnologias devem estar ao nosso serviço e não ao contrário. Utiliza o computador como ferramenta e não como um fim em si mesmo. Compra só programas, periféricos e acessórios que precises de utilizar. Aproveita as possibilidades de comunicação para encurtar distâncias e não para alongar conversas.
8° Leva uma vida sã e mais próxima da Natureza: Faz exercício regularmente, mas sem cair no culto do corpo perfeito. Renuncia à comida pré-cozinhada. Consome produtos naturais e frescos. Prefere a água aos refrigerantes... Se vives na cidade, passeia até ao campo, à montanha, ao mar. Há quanto tempo não assistes ao nascer do Sol ou ao seu ocaso?
9° Recupera o sentido de comunidade: Não caias no sedentarismo. Compromete-te com atividades que te obriguem a sair de casa... Sê solidário, voluntário e generoso.

Audácia/S&L


Cristina Silva
Psicóloga