ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE TEMPERANÇA

Álcool ­ um inimigo conhecido

Século XXI
Quinta-feira, 22 de setembro de 2016, o jornal Público, na página da Ciência, traz a seguinte notícia: “O mundo está a falhar na redução da obesidade infantil e do consumo de álcool.” Estava eu à espera de ver os noticiários a abrirem com esta notícia, de ver os programas de entretenimento a desenvolver o assunto, de ver tomadas de posição de quem de direito, mas, surpreendentemente, assim como foi publicada foi esquecida (ou ignorada). Na verdade, a notícia era o resultado de um trabalho de investigação do Imperial College of London, publicado na revista The Lancet, em que se avaliava o ranking intermédio dos 188 países que assinaram o compromisso dos “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, a terminar em 2025 (ver o quadro). Portugal ocupa um honroso 22º lugar, com alguns avanços em áreas importantes como a da mortalidade infantil, da sinistralidade e respetivo socorro, mas... Tendo em conta os indicadores que dizem respeito à obesidade e ao álcool, entre os 33 indicadores de saúde analisados, não ficamos nada bem na fotografia. Neste artigo discutiremos apenas o tema relativo ao álcool. O porquê tem a ver com o facto de me parecer que não aprendemos nada. Em setembro de 2012 (há quatro anos...) um artigo da Agência Internacional de Pesquisa do Cancro (AICR/WCRF) alertava para o facto de o álcool aumentar o risco de vários cancros. Nessa altura, a mesma Agência explicava que o etanol, o “inimigo” perigoso, era uma substância cancerígena e que, de acordo com as evidências disponíveis em diferentes estudos, “não existiam níveis seguros para o consumo desta substância”. Dizia então: “De modo a não existir risco de cancro causado pelo álcool, a recomendação é que não se beba de todo. Quanto mais álcool for consumido, maior o risco de vários cancros e até um consumo moderado pode significar uma ameaça, além de que não existe diferença no tipo de bebida alcoólica, uma vez que todas são constituídas por etanol.” Acrescentava ainda que “cerca de 10% de todos os cancros nos homens e 3% nas mulheres podem ser atribuídos ao consumo de álcool”. Assustadoramente, e perante estes factos, uma em cada 5 pessoas não sabe que o seu consumo pode causar cancro. Pior ainda é o facto de que a maior parte das pessoas entende que o consumo de álcool pode ser saudável no que diz respeito ao vinho tinto, pelo menos como fator de proteção para doenças cardíacas.
Permitam-me contar-vos a história do nascimento de um mito.

Nasce o mito
Tudo começou com um estudo realizado pelos investigadores Rankin e Ashley, quando compararam as tendências do consumo de bebidas alcoólicas entre 24 nações europeias e os EUA, tendo descoberto que, entre 1950 e 1985, as nações ocidentais estudadas quase duplicaram o seu consumo de álcool per capita. A média percentual de aumento situava-se entre os 70 e os 82%. No entanto, havia uma exceção à regra: a França. Durante o mesmo período, o decréscimo do consumo de álcool, em França, por cidadão, fora de 23%. Para estes investigadores, a razão deste decréscimo situava-se no esforço nacional francês, realizado durante décadas, de sensibilização da população para os malefícios do consumo do álcool. Assim, ao contrário do que acontecia em Portugal, um pouco mais a oriente, para onde rumavam tantos Portugueses à procura de um futuro melhor ou fugidos à guerra do Ultramar, fazia-se um esforço nacional de grande envergadura para conter a tragédia. Os resultados foram esclarecedores, pois, anos mais tarde, uma importante diminuição de patologia cardiovascular ficou conhecida como “paradoxo francês”, pois num país moderno com problemas parecidos com os de outras nações, havia uma diminuição deste tipo de patologia, enquanto noutros ela aumentava. Perante este paradoxo, alguns procuraram explicações no lado errado, ao atribuírem ao consumo moderado de álcool a razão dessa diminuição. No entanto, os Franceses consumiam 3,8 vezes mais manteiga, 2,8 vezes mais banha e toucinho de porco, tinham níveis mais elevados de colesterol e tensão arterial. Consumiam mais vinho tinto e tinham níveis semelhantes de consumo de tabaco e obesidade. Como podiam ter, então, menos problemas do foro cardiovascular? Aquilo que não foi enfatizado é que os Franceses ingeriam, mesmo assim, muito menos produtos lácteos e consumiam uma maior quantidade de verduras e frutas. No lugar de uma análise global destas diferenças, passou a acentuar-se o facto de que o consumo de vinho tinto era o responsável pela diferença dos níveis mais baixos de doença cardiovascular e morte em França. Ora, um fator que está demonstrado estar fortemente relacionado com patologia e morte cardiovascular é a gordura animal contida em alimentos de origem láctea: consumidos em menor quantidade pelos Franceses, quando comparados com os Americanos, por exemplo.1 Assim, nascia um mito.

E depois?
Agora invoca-se a presença do resveratrol no vinho tinto como o verdadeiro segredo para os benefícios a nível cardíaco.
• “Por acaso”, o sumo de uva também o tem, mas as vulgares “azedas” do campo ainda são mais ricas nesse fitoquímico. Porque não explorar este filão?
• “Por acaso”, o sumo de uva não tem álcool. Porque não se promove o seu consumo?
• “Por acaso”, para além dos riscos em relação ao cancro, o etanol é responsável pelo aumento do número de acidentes de viação, de acidentes de trabalho, de violência doméstica, de alteração de comportamentos, de risco gravídico, de baixa de rendimento escolar, etc., coisa que não acontece com o sumo da uva.
“Um grande problema é sempre precedido de um pequeno problema” e a incapacidade para perceber isso faz com que o negócio de milhões, bem à vista de todos, seja a opção no momento das decisões. Fala-se em taxar as bebidas alcoólicas, e com isso percebemos a fonte de rendimento para os governos. Será também para os serviços de saúde? Para as famílias?

Inimigo conhecido
Brincamos com coisas sérias. Na realidade, o consumo de álcool é considerado como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento do cancro. Estamos a falar, mais concretamente, do cancro da boca, da faringe, da laringe, do esófago, do cancro da mama pré e pós-menopausa, do cancro colorretal e do cancro do fígado. Sem esquecer o risco acrescido de cancro do pulmão dos fumadores que bebem bebidas alcoólicas. O consumo em simultâneo de álcool e tabaco produz um efeito de risco acrescido, o que significa que o efeito do uso combinado dos dois aumenta mais o risco de cancro do que as partes tomadas individualmente. Entre os consumidores, o risco para todos os cancros aumenta com cada bebida adicional diária. A maior proporção de mortes atribuídas ao álcool, cerca de 30%, ocorreu em bebedores que consumiam uma média de 1,5 bebidas ou menos por dia (saiba que uma bebida alcoólica standard contém aproximadamente 14 gramas de álcool. É a quantidade de álcool consumida que interessa e não o tipo de bebida). No que diz respeito às mulheres, o risco é ainda maior, pelo facto de metabolizarem o álcool de forma mais lenta do que os homens e o seu conteúdo corporal em água ser menor. Isso leva a que o prejudicial etanol permaneça mais tempo em circulação sanguínea e, estando menos diluído, fique mais concentrado no sangue, criando assim mais condições para fazer danos. Talvez esse fator contribua para o facto de o risco de cancro da mama aumentar com o consumo de bebidas alcoólicas. De facto, por cada bebida comum diária parece haver um aumento de 11% de risco de cancro da mama pós-menopausa. Um estudo envolvendo mais de 320 000 mulheres sugere que duas ou mais bebidas por dia aumentam em 41% a possibilidade de desenvolver cancro da mama. Um outro estudo recente, em que foram avaliados mais de 6700 homens, sugere que o consumo de álcool está associado a um risco superior de cancro da próstata. De acordo com os resultados do estudo, aqueles que bebem mais de 7 bebidas por semana têm 21% mais possibilidades de terem cancro da próstata e 34% de terem cancro da próstata de alto risco.

Deficiências nutricionais
Além de o consumo de álcool representar um fator de risco para o cancro, por ação direta, contribui também indiretamente por ser uma fonte de calorias de pouco valor nutricional, contribuindo assim para o aumento de peso. Sabe-se que o excesso de peso ou a obesidade aumentam o risco de vários cancros. Todos os estudos credíveis são consistentes com a responsabilidade do consumo de álcool nas doenças cardíacas, na subida da pressão arterial, nos AVC, na osteoporose, na má nutrição, na inflamação do pâncreas, nas lesões cerebrais, na cirrose hepática, nos acidentes de todo o tipo, na violência e no suicídio. E deixo-vos pensar nas consequências para os filhos de mulheres consumidoras de álcool em qualquer quantidade...

Deficiências mentais e físicas
Testes revelam que, depois de beber 3 latas de cerveja, há, em média, 13% de perda nítida de memória. Depois de tomarem pequenas quantidades de álcool, foram testados datilógrafos treinados e a percentagem de erro encontrada foi de 40% em relação a não bebedores. O alcoolismo é a maior das toxicodependências dos Portugueses, com um valor estimado de 1 800 000 consumidores excessivos, com graves repercussões na saúde física, psíquica, social, intelectual e emocional do indivíduo e das suas famílias, e com reflexos negativos no trabalho, na comunidade e na sociedade em geral.4 A Organização Mundial da Saúde afirmou que “desde o ponto de vista da saúde pública e clínico, não existe benefício em promover o consumo de álcool como uma estratégia preventiva” e os investigadores estimaram que os anos de potencial vida perdida, olhando para as vendas de álcool e o risco na data da morte, correspondem em média entre 17 a 19 anos.5
“É uma realidade infeliz o facto de o álcool causar cancro. Na realidade, o álcool é responsável por aproximadamente um em cada dez cancros na UE e os consumidores de álcool têm o direito de serem informados desta realidade. (…) Estes consumidores podem reduzir substancialmente o seu risco de cancro bebendo menos e menos vezes.”6

E hoje?
Ao que se dizia em 2012, e que foi frequentemente repetido, juntou-se, surpreendentemente, um novo e arrasador estudo, publicado na revista The Lancet, de setembro de 2015 com o título “Alcoholism: Clinical & Experimental Research”, em que se pode ler o seguinte: “Ingerir bebidas alcoólicas não traz benefícios evidentes para a saúde.” De facto, aumenta o risco em contrair um cancro relacionado com o álcool em 51%... Este estudo, que envolveu 114 970 pessoas de 12 países, sem história prévia de doenças cardíacas, cancro ou AVC, decorreu durante 4 anos e evidenciou que:
• A ingestão de elevadas quantidades de álcool aumentava o risco de morte por várias causas, entre 31 e 54%.
• Os bebedores de vinho tinham esse risco de cancro aumentado em 38%, em relação aos não bebedores, sendo de 69% nos consumidores de bebidas destiladas e de 20% nos bebedores de cerveja.
• Não foi evidente uma diminuição da mortalidade cardiovascular ou AVC nos bebedores correntes.
• O consumo de álcool estava relacionado com mais de 60 problemas de saúde e representava o terceiro fator de risco modificável mais importante, causador de morte ou incapacidade.
• A redução do risco de ataque cardíaco era consistente com a literatura prévia, tendo em conta o consumo exclusivo de vinho tinto e o baixo consumo de álcool. Contudo, este facto era ofuscado pelo claro aumento de risco por outras razões.
• Consumidores com ingestão elevada de álcool tinham um risco de morte aumentado em 31%, sendo que aqueles que tinham episódios de ingestão elevada de álcool tinham um risco de mortalidade mais elevado de 54%, ou de 71% em relação a acidentes.
• Smyth e os seus colegas enfatizavam que as pessoas que não bebiam deviam ser alertadas para não começarem a beber por causa dos potenciais riscos associados, ou para não começarem a beber exageradamente em episódios isolados.
Jason P. Connor, PhD, da Universidade of Queensland em Herston, na Austrália, e Wayne Hall, PhD, do King’s College of London, em Inglaterra, escreveram num documento que foi anexado ao estudo publicado no The Lancet, com o seguinte comentário:
“Não devemos atrasar as nossas decisões. Evidências mais do que suficientes estão disponíveis para que os governos dos países deem prioridade à necessidade de reduzir as doenças relacionadas com o consumo do álcool…”
Como conclusão, Andrew Smyth, MMedSc, um dos pesquisadores do Population Health Research Institute, McMaster University, em Hamilton, no Ontário, no Canadá, afirmava: “Os nossos estudos sugerem que não há nenhum benefício no consumo do álcool.”

Conclusão
Será preciso acrescentar algo? Modificar mentalidades, mesmo que apoiados por estudos honestos e credíveis, é uma tarefa imensa numa sociedade facilmente influenciada pelos especialistas do marketing e por lobbies poderosíssimos ligados à produção de bebidas alcoólicas. Existem exemplos incontáveis da manipulação de pesquisas publicadas pelas indústrias farmacêuticas nos anos recentes. É por isso que o professor de medicina de Harvard, Arnold Symour Relman, disse ao mundo que a profissão médica foi comprada pela indústria farmacêutica. O Dr. Richard Horton, editor-chefe da revista The Lancet, disse que muita da literatura científica publicada hoje é inverdade. Já a Dra. Marcia Angell, antiga editora-chefe da New England Journal of Medicine, disse: “A indústria farmacêutica gosta de se mostrar como uma indústria baseada em pesquisas, como a fonte de drogas inovadoras. Nada poderia estar mais longe da verdade.” É por isso que John Loannidis, um epidemiologista da faculdade de medicina da Universidade de Stanford, publicou um artigo intitulado “Porque a maioria dos achados de pesquisas publicadas são falsos?”, que, subsequentemente, se tornou no artigo mais acessado da história da PloS. Não é apenas o interesse económico que manda nas nossas decisões, é também, assumidamente, o facto de gostarmos de correr riscos. Há anos que se fala nos riscos relacionados com o consumo do álcool, no entanto, basta um estudo patrocinado sabe-se lá por quem a referir vantagens no consumo de uma ou outra droga, para nos sentirmos de consciência aliviada e aptos a consumi-la ou mesmo a patrociná-la. Estranho mundo este.

O consumo esporádico excessivo entre adolescentes dos 13 aos 18 anos passou de 25% para 56%. Isto tem a sua origem na moda da bebida de cinco shots seguidos!2O consumo de 5 ou mais bebidas num único episódio, pelo menos uma vez por mês, coloca esse bebedor no grupo dos grandes bebedores.
30g de álcool (2 cervejas, por exemplo):
► Aumenta o tempo requerido para tomar uma decisão em 10%.
► Atrasa a reação muscular em 17%.
► Aumenta os erros devidos a falta de atenção em 13%.3

 

Alberto Pereira da Silva
Médico

1. “Álcool”, Prof. Dr. Luís Nunes, 2010.
2. Conta Comigo, abril-junho 2010.
3. American Journal of Public Health, Paul Harvey, 2013.
4. “Álcool”, Prof. Dr. Luís Nunes, 2010.
5. Edição online do American Journal of Public Health.
6. Dr. Nick Sheron, Royal College of Physicians.